Reflexão para o 3º Domingo da Quaresma (11/03)

O corpo de Jesus é o novo Templo


Textos da Liturgia da Palavra:
1ª Leitura: Ex 20,1-17 ou 20,1-3.7-8.12-17
2ª Leitura: 1Cor 1,22-25
Evangelho: Jo 2,13-25

 
A Páscoa dos judeus estava próxima, e Jesus subiu para Jerusalém. No Templo, Jesus encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. Então fez um chicote de cordas e expulsou todos do Templo junto com as ovelhas e os bois; esparramou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: «Tirem isso daqui! Não transformem a casa de meu Pai num mercado.» Seus discípulos se lembraram do que diz a Escritura: «O zelo pela tua casa me consome.»
Então os dirigentes dos judeus perguntaram a Jesus: «Que sinal nos mostras para agires assim?» Jesus respondeu: «Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei.» Os dirigentes dos judeus disseram: «A construção desse Templo demorou quarenta e seis anos, e tu o levantarás em três dias?» Mas o Templo de que Jesus falava era o seu corpo. Quando ele ressuscitou, os discípulos se lembraram do que Jesus tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.
Jesus conhece o homem por dentro - Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo os sinais que ele fazia, muitos acreditaram no seu nome. Mas Jesus não confiava neles, pois conhecia a todos. Ele não precisava de informações a respeito de ninguém, porque conhecia o homem por dentro.



A Páscoa, principal festa dos judeus, pois nela o povo recordava a libertação da escravidão do Egito, reunia na cidade de Jerusalém uma multidão de peregrinos. O povo vinha para celebrar o Deus da libertação e as lideranças religiosas e políticas se aproveitavam para explorar ainda mais o povo. Contraste gritante: a Páscoa não é mais a festa do povo que celebra e revive a libertação, mas a festa das lideranças exploradoras, que se aproveitam do momento para oprimir mais ainda o povo. Pior ainda: parece que Deus está de acordo com tudo isso.
Jesus não concorda com essa situação. "No templo, encontrou os vendedores e bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. Então, fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, junto com as ovelhas e bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas" (vv.14-15).
Ao mostrar Jesus usando um chicote, João recorda o que fora anunciado por Zacarias: nesse dia não haverá mais comerciantes dentro do templo de Javé dos exércitos" (Zc 14,21). Com esse gesto, Jesus inaugura a era do Messias. Zacarias previa um tempo um que o culto seria isento de exploração do povo. Para João, esse dia chegou com Jesus: não é mais possível culto ou religião conivente com a exploração do povo.
Para aprofundar esse aspecto é preciso ter presente a situação econômica daquele tempo. Nessa época, as terras da Palestina estavam nas mãos dos latifundiários (= elite religiosa de sumos sacerdotes e anciãos), que moravam em Jerusalém. O sumo sacerdote era o presidente o Sinédrio, o supremo tribunal que condenará Jesus à morte.
Três semanas antes da Páscoa os arredores do templo se tornavam um grande mercado. O sumo sacerdote se enriquecia com o aluguel dos espaços para as barracas dos cambistas e vendedores. Os animais (criados nos latifúndios) eram levados a Jerusalém e vendidos a preços, (nessas ocasiões), exorbitantes.
Todo judeu maior de idade devia ir a essa festa e pagar os impostos previstos para o templo.

MOEDA DO TEMPLO: O templo adotara a moeda tíria (cunhada em Tiro, cidade pagã) como moeda oficial, pois ela não se desvalorizava com a inflação que, na época de Jesus, era muito alta. Grande ironia (!): a Lei proibia o ingresso de moedas pagãs no templo. Mas os gananciosos dirigentes religiosos burlavam a Lei em vista de seus privilégios. Os cambistas faziam a troca das moedas "impuras" (= as moedas inflacionadas de quem morava na Palestina ou fora dela) pela moeda "pura" e por seu trabalho, cobravam altas taxas (8%).
ATITUDE DE JESUS: Jesus expulsou do templo bois, ovelhas, pombas, animais usados nos sacrifícios que o povo oferecia a Deus. Expulsando-os do templo, Jesus declara inválidos todos esses sacrifícios, bem como o culto que se sustentava graças à exploração do povo.

Os vendedores de pombas são os mais visados por Jesus: "Tirem isso daqui. Não façam da casa de meu Pai um comércio" (v.16). Os pobres - não tendo condições de oferecer a Deus ovelhas ou bois, - sacrificavam pombas para os ritos de expiação e purificação, bem como para os holocaustos de propiciação (cf. Lv 5,7; 14,22.30s).
Pobres desses pobres! Além de nada terem, até Deus parecia estar distante deles. A teologia veiculada pelo templo de Jerusalém é extremamente conservadora, isso porque os dirigentes do templo estão por trás de todo comércio que nele se desenvolve.

CULTO x LUCRO! "O culto proporcionava enormes riquezas à cidade. Sustentava a nobreza sacerdotal, o clero e os empregados do templo. O gesto de Jesus toca, portanto, o ponto nevrálgico: o sistema econômico do templo, com seu enorme afluxo de dinheiro procedente do mundo todo conhecido... era outra forma de exploração". Nas grandes festas o preço das pombas (=sacrifício dos pobres) ia às nuvens fortalecendo a exploração dos ricos sobre os empobrecidos.
Deus, - o aliado dos sofredores empobrecidos, sempre denunciou, (através dos profetas), a exploração da religião. O gesto de expulsar os comerciantes do templo suscita duas reações:

1ª. dos discípulos: para eles, Jesus seria um reformador da instituição. E até citam a Bíblia: "o zelo por tua casa me consome" (v.17; cf. Sl 69,10). Logo adiante (vv. 21-22) João afirma que os discípulos, após a ressurreição de Jesus, redimensionam seus conceitos a respeito de Jesus. Ele não é um reformador do templo, mas aquele que o substitui. Ele não reforma, ele substitui, ele traz o novo.
2ª. A dos dirigentes: exatamente os que se sentem lesados pelo gesto de Jesus (gesto de acabar com o comércio, com o lucro deles no templo). Eles o ameaçam, querem intimidar: "Que sinal nos mostras para agires assim?" (v.18). Jesus responde que sua morte e ressurreição serão o grande sinal: "destruam este templo, e em três dias eu o levantarei" (v.19). Temos aqui o centro do evangelho deste dia.

Jesus não só aboliu os sacrifícios no templo de Jerusalém, Ele decretou que o fim do templo já chegou. Aboliu os sacrifícios e o templo! De agora a em diante, será através de seu corpo, - morto e ressuscitado, - que o povo se reencontrará com Deus para celebrar a Páscoa da libertação. (A essa altura o evangelho de João já aponta para os responsáveis pela morte de Jesus).
Os vv. 23-25 iniciam novo assunto. Servem de introdução ao diálogo de Jesus com Nicodemos (ev. do próximo domingo). Parece estranho que Jesus não confie nas pessoas. "Jesus não confiava neles, pois conhecia a todos. Ele não precisava do testemunho de ninguém, porque conhecia o homem por dentro". Ele não confiava porque as pessoas viam nele um reformador das velhas instituições, e não aquele que vem trazer o vinho novo (cf. 2,10). Além disso, no evangelho de João, as pessoas são convidadas, a partir dos sinais que Jesus realiza (v.23), a descobrir a realidade para a qual apontam (o que o sinal quer dizer, e não parar no sinal), mas que permanece oculta a quem não dá, pela fé, sua incondicional adesão a Jesus.

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