Reflexão para o 4º Domingo da Quaresma (18/03)

 Deus amou tanto o mundo, que lhe deu seu Filho único!
 
          A liturgia de hoje está permeada por um fio homogêneo: a passagem da morte para a vida, das trevas à luz, do pecado à reconciliação. Israel estava morto: a terra e a cidade destruídas, o povo exilado. Mas Deus o fez reviver, levando-o de volta. E isso, sem mérito da parte de Israel, mas por intermédio de um pagão, o rei Ciro (que se apresenta como encarregado por Javé para realizar essa obra (2Cr 36,23; cf. Is 44,24-45,13).
          Na mesma linha, a 2ª. leitura fala da nossa revivificação com Cristo. Acentua fortemente a gratuidade do agir de Deus. Não foi por nossos méritos (Ef 2,8s), mas porque Deus o quis em sua grande misericórdia (2,4s). Isso, contudo, não quer dizer que não precisamos fazer nada. Não somos salvos pelas obras, mas para as obras: para as obras boas que Deus nos preparou em sua eterna providência (2,10).
          Por que não nos salvam nossas obras? Porque nosso relacionamento com Deus não é comercial, mas vital. Como poderíamos restituir Àquele de quem recebemos a própria vida? A única maneira de reconciliação é aceitar a nova vida que nos é oferecida, nossa nova "realização", numa práxis que vem de Deus mesmo e que nós assumimos em união com Cristo, seu grande dom.
          A 1ª. leitura mostra como os israelitas - afastados de Deus, exilados de sua terra, levados à Babilônia, - entenderam que sua desgraça era sinal de seu afastamento. Voltaram seu coração para Deus, que os fez voltar à sua terra. Essa história prefigura a volta de todos os seres humanos para Deus, reconduzidos pelo amor que Cristo nos manifestou. 
          Nós que estávamos mortos pelo pecado, mas acreditamos em Cristo, fomos salvos pela graça recebida na fé: "pela graça fostes salvos" (2ª. leit.). Nossos erros mostram que, - por nós mesmos, - não somos capazes de trilhar o caminho certo. A única maneira de voltar é deixar-nos atrair pela bondade, amizade, misericórdia de Deus. Não somos salvos pelas nossa obras (=fizemos esforços por merecer), mas Deus nos salva para as boas obras que ele preparou para que nós entrássemos (penetrássemos) nelas: a caridade, a solidariedade... (Ef 2,10). Não são as nossas obras que nos salvam: quem nos salva é Deus. Mas o que fazemos - a nossa prática de vida fraterna e solidária - encarna a nossa salvação (traduz, revela nossa fé).
         O evangelho expressa idéias semelhantes. É o fim do diálogo com Nicodemos, o fariseu. O trecho inicia com a lembrança do Êxodo. Deus tinha castigado a rebeldia do povo com a praga das serpentes. Para os livrar da praga, Moisés levantou numa haste, à vista dos israelitas, uma serpente de bronze. Os que levantaram com fé os olhos para este sinal ficaram curados. Assim devemos levantar com fé os olhos para o Cristo elevado na cruz e receber dele a salvação, pois Deus o deu ao mundo para que testemunhasse seu amor até o fim. ... "Tanto amou Deus o mundo... " (Jo 3,14-16).
          O evangelho ressalta a bondade de Deus, gratuita e radical, pois dá seu próprio Filho por nós. E descreve a reação dos homens - na sua práxis - diante da irrupção da oferta de Deus: Jesus Cristo e sua mensagem. O homem pode expor a práxis de sua vida à luz dessa oferta, e, então, sua práxis será transformada. Ou pode (auto-suficiente!) fugir dessa nova iluminação, porque suas obras não aguentam a luz do dia. Portanto, e aqui João se torna muito esclarecedor para a problemática atual: a razão por que alguém aceita ou rejeita Jesus não é tanto uma razão intelectual, mas a práxis que ele está vivendo. Quem "faz a verdade" (3,21) aceita a luz de Cristo.
          Para João, o julgamento acontece na rejeição de Cristo, enviado do Pai. E isso acontece já, como também a salvação existe, desde já, na sua aceitação (3,18). Ora esta rejeição ou aceitação acontece na práxis. Nisto está uma mensagem importante para nossa "subida" à festa pascal em espírito de conversão. Não bastará proclamar na noite pascal o Credo, o compromisso da fé. A proclamação deve ser a confirmação daquilo que já estamos vivendo e praticando. Desde já, a Quaresma nos deve levar a uma nova práxis. 
         Daí ser necessário participar da Campanha da Fraternidade e de práticas semelhantes que nos levem a viver, - com convicção, - na luz projetada pelo Filho de Deus, morto na cruz por nós, não austera abnegação, mas positiva e alegre doação aos necessitados. Não que nossa práxis nos salvasse. Mas é preciso que façamos algo, para que se encarne o que Deus quer para conosco;  um amor em atos e verdade (1Jo 3,18). Não são nossas obras que nos salvam. Quem nos salva é Deus. Mas nossas obras encarnam e revelam a salvação operada por Deus. 
         Assim como a gente gosta de expor-se ao sol benfazejo da manhã, devemos expor-nos à luz de Cristo. Sua prática deve iluminar nossa vida, para que "pratiquemos a verdade". Todos somos salvos ou devemos ser salvos pelo amor de Deus que Cristo nos manifesta. Ninguém fabrica sua própria salvação. O autossuficiente permanece nas trevas, ainda que sua suficiência pareça virtude, como era o caso dos fariseus, aos quais se dirige a advertência do evangelho. Por outro lado, se nos deixamos iluminar por Cristo, seremos também uma luz para nossos irmãos. O evangelizado seja também evangelizador. 
          A Quaresma insiste: o pecado não é irreparável. Para os que crêem, existe volta, conversão, perdão, salvação. Jesus não veio para condenar, mas para salvar. Ele é a luz que penetra nossas trevas. Mas há quem fuja da luz, para não admitir que está agindo de maneira errada. Nesse caso, não há remédio (Jo 3,19-21).
          As leituras nos devem fazer pensar na nossa vida. Deus advertiu bastante, pela boca dos profetas, mas Israel não quis ouvir, não obedeceu e os governantes quiseram fazer sua própria vontade; conseqüência disso foi a destruição de Jerusalém e o exílio. Mas a última palavra de Deus é misericórdia; como fez destruir, assim também faz reconstruir. Deus castiga não para destruir, mas para renovar o homem. Mais que castigo, é uma advertência de pai amoroso para com seus filhos. Conosco acontece algo parecido? ... Ou só acontece com os outros? 
          Deus quer restaurar nossa vida em Cristo. Quando nos afastamos de Deus estamos mais perto da morte que da vida. Mas Deus nos co-ressuscitou com Cristo e nos deu um lugar na sua vida. Morto é quem está entregue ao seu egoísmo, às sua paixões, aos seus instintos, aos seus desmandos, à sua vontade hedonista. Para reviver precisa de um amor maior que seu fechamento: a "riqueza da graça" que Deus nos demonstra em Jesus Cristo. Maravilha de amor que deve manifestar-se também na vida dos que são assim renovados; devem realizar a caridade que Deus desde sempre sonhou para eles. 

Pare e pense: 
 "O que Deus sonhou para você? 
 Você acha que está no caminho certo de realizar o que Deus sonhou para você? 

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